A
Poética Brasileira, desde a emancipação do Brasil de Portugal, tem um de seus
traços a busca de uma identidade nacional. Vários foram os escritores que se
debruçaram sobre a questão em seus projetos estéticos José de Alencar, Gonçalves
Dias, Lima Barreto, Mário de Andrade. Tais escritores construíram, ao longo do
tempo, o que podemos chamar de brasilidade.
Tais projetos estéticos, por vezes, incorreram num
projeto ufanista ou folclórico da terra brasileira. “ Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá. As aves que aqui
gorjeiam não gorjeiam como lá.”(Gonçalves Dias). No entanto, não podemos
deixar de observar uma trajetória de busca da liberdade criativa da Língua
Portuguesa em solo brasileiro.
A Semana de Arte Moderna foi ponto e projeto
fundamental para tal empreitada, passado um século de independência do Brasil,
os modernistas de 22 fizeram um balanço da emancipação de nossa cultura e
perceberam que ainda estávamos muito dependentes do outro sem constituir uma
cultura brasileira, de fato.
Sem deixar de reconhecer a importância de escritores
como José de Alencar e seu projeto de nacionalidade(é de Mário de Andrade a
frase “José de Alencar, meu irmão”).
Os escritores do Movimento de 22 se colocaram como destruidores de uma Literatura
de “olho no Castilho” e deram condição para aventuras literárias como a prosa
mágica de Guimarães Rosa, a poesia métrica de João Cabral de Melo Neto e a
poesia bem-humorada de Nicolas Behr.
O momento é breve para explanação mais detalhada dos
caminhos seguidos em prosa, poesia, ficção; desde o Movimento de 22 à poesia
marginal da década de 70 e as aventuras literárias da atualidade. Mas, podemos
balizar que o Modernismo libertará a Língua Brasileira dos preciosismos
linguísticos para que a literatura possa embrenhar-se no mundo da linguagem com
total liberdade, degustando de outras culturas, de outros movimentos , sempre
na ideia de temperar a nossa Poética. “Só
a Antropofagia nos une. Socialmente. Economicamente. Filosoficamente.”
(Oswald de Andrade)
Nesse degustar de novas culturas é que surge a Poética
brasileira atual, bastante devedora dos
projetos estéticos de Mário de Andrade e Oswald de Andrade. Desde A Semana de
Arte Moderna, vários foram os grupos que se propuseram a criar uma estética da
Literatura Brasileira: O romance regional de 30, a prosa intimista de 45, o
Concretismo de 56, as vanguardas de 70, a poesia alternativa de hoje. Alguns
desses movimentos se contraporiam como as Vanguardas de 70 e à Geração de 45,
mas o certo é que todos, sorveram da Poética de Mário de Andrade e Oswald de
Andrade, mesmo que indiretamente.
Nos experimentos da linguagem poderíamos dizer que
Mário foi a nossa lua, sombrio e preocupado de ser bem brasil , mas não tão pau-brasil; Oswald é o nosso sol
disposto a criar sem temor aos mitos passados, devorador do outro. Compará-los
não é tarefa fácil, pois comparações, geralmente, são injustas por incorrermos
no erro de apreciar um em depreciação do outro e, também, porque ambos não se
impuseram limites para fazer da arte um movimento de “adesão profunda aos problemas da nossa terra e da nossa história
contemporânea.” (CÂNDIDO: 2001, P. 11)
É traço marcante do Modernismo que o Movimento nunca
tenha se definido como uma escola literária, sendo seu maior traço a própria
liberdade dos escritos. O contexto, portanto, dificulta definições,
conceituações e comparações entre seus maiores expoentes: Mário de Andrade e
Oswald de Andrade. O que se pretende, no presente trabalho, é mais refletir
sobre a decisiva participação dos mesmos para um momento ímpar da Literatura
Brasileira do que propriamente compará-los. “De fato, nenhum outro momento da literatura brasileira é tão vivo sob
este aspecto, nenhum outro reflete com tamanha fidelidade, e ao mesmo tempo com
tanta liberdade criadora, os movimentos da alma nacional.” (Op.Cit., P. 11)
Em seu livro de estréia Paulicéia Desvairada, Mário de
Andrade tenta representar a tensão entre o eu moderno e a cidade moderna em
linguagem nova, o livro quase um evangelho estético do Modernismo nem sempre
foi feliz em sua intenção, mas soube reunir os poetas mais jovens e
entusiasmá-los a tentar renovar a
Poética em língua brasileira,
Inspiração
São Paulo!
Comoção de minha vida
Os meus amores
são flores feitas de original....
Arlequinal!...Traje
de losangos...Cinza e ouro...
Luz e
bruma...Forno e inverno morno...
Elegâncias
sutis sem escândalos, sem ciúmes...
Perfumes de
Paris...Arys!
Bofetadas
líricas no Trianon...Algodoal!...
Segundo o João Luiz Tafetá “a passagem de toada a objetividade à subjetividade é perturbada pelo
movimento incessante entre a Paulicéia e o desvairado trovador arlequinal.”(20??:
p. 62) Caracterizado no poema acima.
Paulicéia Desvairada ainda guarda em sua escritura as
dissonâncias entre o eu e a cidade moderna que com a maturação de sua escritura
se equilibrará causando um bonito efeito poético
Quando eu
morrer quero ficar,
Não contem aos
meus inimigos
Sepultado em
minha cidade,
Saudade.
A preocupação pelo nacional, o olhar
observador e preocupado com a urbanização de sua cidade também persiste em sua
obra, vejamos um trecho do poema A
meditação sobre o Tietê(1945)
Novas
ruas abertas e a falta
De
habitações e
Os
mercados?...E a tiradeira de Cristo!...
Tu
és demagogia. A própria vida abstrata tem vergonha
De
ti em tua ambição fumarenta.
Mário de Andrade havia presenciado a esperança da Era
Vargas e a decepção com o Estado Novo, as poesias dele acompanham o processo
histórico, em a poesia supracitada João Luís Tafetá comenta que o mesmo faz
paródia com o discurso dos demagogos, imitando a retórica dos demagogos até
torná-lo ridículo. Ser moderno não é esquecer a tradição, mas usurpá-la, tirar
outros significados de uma mesma linguagem, para Mário “A redundância de significado, compensada pela multiplicação dos
significantes, revela uma inclinação à explicitação progressiva do sentido;...”(TAFETÁ
IN BOSI:20??, p.69) Há em Mário de Andrade a vontade de escrever em linguagem
nova que confronta o eu, ainda em linguagem subjetiva, e a cidade que se quer
moderna.
À guisa de conclusão deixemos que o próprio Mário
argumente em que “o defeito é uma
circunstância de beleza.”(Mário de Andrade, 1924). Já em seu Prefácio Interessantíssimo Mário de
Andrade diz:
Leitor:
Está
fundado o Desvairismo
Ele converte as palavras, para
anunciar um novo momento brasileiro cotidiano, prosaico, multicultural e com o
tempo tais intenções irão se aperfeiçoar permitindo que eu poético da poesia
mário-andradina reuna de forma equilibrada e contida os postulados modernistas
Eu
sou Trezentos
Eu
sou trezentos, sou trezentos
e
cincoenta,
As
sensações renascem de si mesmas sem repouso,
Ôh
espelhos, ôh pirineus! Ôh caiçaras!
Si
um deus morrer, irei no Piauí
buscar
outro!
(1929)
Poemas
da Amiga
A Jorge de
Lima
A
tarde se deitava nos meus olhos
E
a fuga da hora me entrega abril,
Um
sabor familiar de até logo criava
Um
ar, e não sei por que te percebi.
(1929/1930)
Os poemas supracitados fazem parte
de sua produção do final dos anos 20 e guarda o ar coloquial ao mesmo tempo se
representa num eu lírico expressivo de suas emoções e reflexões.
Já se Mário de Andrade preferiu
viajar pelo Brasil e ser um quase pau-brasil, Oswald de Andrade, por opções
estéticas, seria o próprio devorador do outro numa proposta de uma total
remodelação da Literatura Brasileira. Para tanto, fez-se necessário uma total
convicção de construir um outro momento, daí Oswald ter se destacado nas Letras
brasileiras como um espírito polêmico e inquieto. Daí, também, a comparação que
fiz de ambos como a lua e o sol, Oswald não temeu ir para Paris para conhecer o
Brasil. Uma proposta que Mário achou temerária, Oswald a sorveu consciente de
que não poderíamos ignorar as influências estrangeiras, mas que deveríamos saber
antropofagir, com uma estética do devir brasileiro.
Nessa sua tentativa de um devir
brasileiro, podemos colocar que Oswald assumiria uma posição mais radical do
que Mário de Andrade. Mas, como já dissemos o próprio Movimento de 22 nunca se
colocou como uma proposta estética uma se fragmentando em vários outros
movimentos.
Assim, Oswald de Andrade junto com
Raul Bopp e Antônio Alcântara Machado, fundam o movimento nativista
Pau-Brasil(1924) e posteriormente o Manifesto Antropófago(1928)
Movimento Antropófago
Tupi or not Tupi, that is the question.
Contra
todas as catequeses. E contra
A
mãe dos Gracos.
Haroldo de Campos caracteriza a
poesia de Oswald de Andrade como uma poesia da radicalidade(Prefácio do livro
Pau-Brasil), no sentido em que a raiz é a própria linguagem e ele a transforma
em quase um anti-verso
AMOR
HUMOR
Sem incorrer em comparações
reducionistas, a vontade de eliminar da Língua Brasileira a “eloqüência balofa e roçagante” o levou a
opções estéticas mais radicais que Mário de Andrade e a uma despojada,
sincopada e sintética poesia
A
alegria é a prova dos nove
Ao que podemos identificar como
traço fundamental de sua poesia e influenciaria as Vanguardas de 70 e daria ao
verso atual um quê de casualidade e minimalismo. Um passeio intertextual pela Poética
Brasileira.
Não
fale, amor. Cada palavra, um beijo a menos.
Dalton Trevisan
falta
uma letra na v_da
falta
uma pedra no caminho
CONCLUSÃO
Embora não tenha aqui a intenção de
refutar a crítica de Haroldo de Campos, penso
que a incompreensão e o espanto diante da poesia de Oswald de Andrade
teria sido muito maior se não houvesse no mesmo panorama literário a poesia de
Mário de Andrade.
Ainda pouco compreendido e de
difícil estudo, O Movimento de 22 se propõe a ser um movimento de ruptura,
porém, até na ruptura é necessário um processo introdutório para que o leitor
se leia naquele movimento, é a sensação de estranhamento muito freqüente no
discurso pós-modernoque
impede ao leitor mais desavisado se ler em tais escritos. É certo que a idéia
era acabar com toda “eloqüência balofa e
roçagante,” mas como o próprio Oswald de Andrade coloca coube ao nosso
“poeta futurista” abrir caminhos para que jovens como Manuel Bandeira e para
que o próprio Oswald de Andrade quisesse “Transformar
a palavra em outra coisa que não seja a lógica da própria palavra.”
Desse modo, ambos tiveram papéis
fundamentais para que o leitor contemporâneo possa rir com os mesmos ou
vislumbrar um novo momento para a Poética Brasileira.
Fazenda
O
mandacaru espiou a mijada da moça
Oswald de Andrade
O
Poeta come Amendoim
Noites
pesadas de cheiros e calores amontoados...
Foi
o sol que por todo o Brasil
Andou
marcando de moreno os brasileiros.
Mário de Andrade