Chove lá fora e aqui...
Estava
chovendo lá fora, uma chuva de verão, inesperada e torrencial. A sala na
penumbra da quase noite tornara-se escura, era seu primeiro dia. Tinha
batalhado tanto para estar ali e agora queria ir embora, mas a chuva não lhe
deixara outra opção a não ser entrar.
-E os
outros?- Perguntara
-Não vieram,
acho que por causa da chuva- Um sorriso amarelo.
-Mas tem
nada não, podemos ser só nós dois, já que você está aqui. Nossa que chuva, você
está tremendo, vou buscar uma toalha.
Assim,
falando aos atropelos, enquanto passava uma toalha por seu corpo, toque quase
sem querer, sobressalto, constrangimento, será que ele sabia, não ele não podia
saber, ninguém sabia, só eu. E o que eu sabia? Eu nada sabia. Só eu todos os
dias, sem saber quem era, o que eu era, sonhos, um deles está ali. Difícil fora
convencer seu pai.
-Mas pai é
na Igreja, aulas de violão, nem na igreja eu posso ir?
- Frescura,
vai estudar! Aprender violão, dá dinheiro? Dá nada!- Assim era meu pai, durão, queria que eu me
formasse, um canudo. Eu sonhava com outras coisas, música, poesia, amor, mas eu
também não me entendia, baboseiras.
-E aí, vamos
começar?-disse ele
Voltara à realidade.
- Vamos para
o salão paroquial, é melhor, ajeitei uns bancos e uma mesinha para a turma! –
Falou em tom amigável, ele era sempre assim brincalhão, amigo, ajudava a todos,
tão jovem, bonito, por que ser padre? Por que não? Todos os padres foram jovens
um dia, foi o que ele respondeu, certa vez.
Foram ao
salão, no cantinho havia uns bancos mais altos, sentei num deles sem ânimo.
Preso a esse compromisso, podia ir embora, por que não? Mas não tinha motivos.
- Vamos aprender primeiro os nomes das cordas, a primeira é mi- dedilhou o violão.
Entregou-me o violão, tentava colocar minhas mãos nas cordas do violão,
tentei seguir suas orientações, mas tudo tão difícil, por que os outros não
estavam ali? Só conseguia sentir o pelo dele enroscado ao meu, meu corpo jovem respondendo
ao seu calor, e se ele notasse? Olhou pra mim, tenso, sem sorriso. O toque de
sua mão enquanto me ajudava com as notas.
- Não faça
assim, não pode ser, não comigo...não posso dizer se é errado, mas não podemos,
só quero ser bom.É pra isso que estou
aqui...foi pra isso...
Se era assim
por que me olhava tão fixamente, por que me dizer isso enquanto estava na minha
frente, por que colocava as mãos em minhas pernas, não percebia como eu estava?
Suas mãos firmes se agarraram a mim, um náufrago, onde lera isso ou talvez nunca lera, eu não queria sair dali, suas mãos continuavam em minhas pernas,
toquei-as, segurei-as, agarrei-me a elas.
- Não quero
também, nunca quis, vou embora.-O corpo
todo se recusava a obedecer, as mãos
fizeram um movimento contrário e encostaram em seu peito, a cabeça trêmula
buscara o equilíbrio recontando-se nele.
- Você sabe
o que está fazendo? O inferno que será sua vida? Todos olharão pra você e não
te entenderão, eu sei disso. – Ainda assim segurou minhas mãos, apertou-as com raiva, mas não só
isso, desejo, tesão.
Não
suportava mais aquilo. Que era isso? Eram homens, feitos pra dominar, pra
controlar, nosso corpo pedia isso, nossa masculinidade. Levantou-se, brusco,
com raiva dele, de si, do mundo. Só
conseguiu estar mais próximo, saber que ele também o queria, estranho sentir seu
pênis duro ao encontro do dele.
- Não sou
bicha- disse-lhe com raiva, lembrando-se do pai.
- Não, não
é.
Corpos colados, línguas unidas, uma luta de homens, fortes, musculosos,
recuos, avanços, as roupas arrancadas, pêlos enroscando-se, os corpos tesos,
verdadeiros atletas olímpicos na arena, magnificamente belos. Amor estranho,
estranho amor, mas ainda amor. Devaneios.
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