domingo, 14 de abril de 2013

Chove lá fora e aqui...


Chove lá fora e aqui...

Estava chovendo lá fora, uma chuva de verão, inesperada e torrencial. A sala na penumbra da quase noite tornara-se escura, era seu primeiro dia. Tinha batalhado tanto para estar ali e agora queria ir embora, mas a chuva não lhe deixara outra opção a não ser entrar.
-E os outros?- Perguntara
-Não vieram, acho que por causa da chuva- Um sorriso amarelo.
-Mas tem nada não, podemos ser só nós dois, já que você está aqui. Nossa que chuva, você está tremendo, vou buscar uma toalha.
Assim, falando aos atropelos, enquanto passava uma toalha por seu corpo, toque quase sem querer, sobressalto, constrangimento, será que ele sabia, não ele não podia saber, ninguém sabia, só eu. E o que eu sabia? Eu nada sabia. Só eu todos os dias, sem saber quem era, o que eu era, sonhos, um deles está ali. Difícil fora convencer seu pai.
-Mas pai é na Igreja, aulas de violão, nem na igreja eu posso ir?
- Frescura, vai estudar! Aprender violão, dá dinheiro? Dá nada!-  Assim era meu pai, durão, queria que eu me formasse, um canudo. Eu sonhava com outras coisas, música, poesia, amor, mas eu também não me entendia, baboseiras.
-E aí, vamos começar?-disse ele
Voltara  à realidade.
- Vamos para o salão paroquial, é melhor, ajeitei uns bancos e uma mesinha para a turma! – Falou em tom amigável, ele era sempre assim brincalhão, amigo, ajudava a todos, tão jovem, bonito, por que ser padre? Por que não? Todos os padres foram jovens um dia, foi o que ele respondeu, certa vez.
Foram ao salão, no cantinho havia uns bancos mais altos, sentei num deles sem ânimo. Preso a esse compromisso, podia ir embora, por que não? Mas não tinha motivos.
- Vamos aprender primeiro os nomes das cordas, a primeira é mi-  dedilhou o violão.
Entregou-me o violão, tentava colocar minhas mãos nas cordas do violão, tentei seguir suas orientações, mas tudo tão difícil, por que os outros não estavam ali? Só conseguia sentir o pelo dele enroscado ao meu, meu corpo jovem respondendo ao seu calor, e se ele notasse? Olhou pra mim, tenso, sem sorriso. O toque de sua mão enquanto me ajudava com as notas.
- Não faça assim, não pode ser, não comigo...não posso dizer se é errado, mas não podemos, só quero ser bom.É pra isso que estou aqui...foi pra isso...
Se era assim por que me olhava tão fixamente, por que me dizer isso enquanto estava na minha frente, por que colocava as mãos em minhas pernas, não percebia como eu estava? Suas mãos firmes se agarraram a mim, um náufrago, onde lera isso ou talvez nunca lera, eu não queria sair dali, suas mãos continuavam em minhas pernas, toquei-as, segurei-as, agarrei-me a elas.
- Não quero também, nunca quis, vou embora.-O  corpo todo se recusava a obedecer,  as mãos fizeram um movimento contrário e encostaram em seu peito, a cabeça trêmula buscara o equilíbrio recontando-se nele.
- Você sabe o que está fazendo? O inferno que será sua vida? Todos olharão pra você e não te entenderão, eu sei disso. – Ainda assim segurou  minhas mãos, apertou-as com raiva, mas não só isso, desejo, tesão.
Não suportava mais aquilo. Que era isso? Eram homens, feitos pra dominar, pra controlar, nosso corpo pedia isso, nossa masculinidade. Levantou-se, brusco, com raiva dele, de si, do mundo.  Só conseguiu estar mais próximo, saber que ele também o queria, estranho sentir seu pênis duro ao encontro do dele.
- Não sou bicha- disse-lhe com raiva, lembrando-se do pai.
- Não, não é.
Corpos colados, línguas unidas, uma luta de homens, fortes, musculosos, recuos, avanços, as roupas arrancadas, pêlos enroscando-se, os corpos tesos, verdadeiros atletas olímpicos na arena, magnificamente belos. Amor estranho, estranho amor, mas ainda amor. Devaneios.

Pindaíba

Après Cellina Muniz


A REVISTA PINDAÍBA, UMA PUBLICAÇÃO INDEPENDENTE, ATREVIDA, METIDA A BESTA E CHEIA DE VONTADE DE POTÊNCIA, GRAÇA E INDIGINAÇÃO, IDEALIZADA, INSPIRADA E VIVENCIADA POR UMA CERTA MARGINÁLIA DA CIDADE DE FORTALEZA, CAPITAL DA TERRA DE IRACEMA, ESPECIALMENTE NO BAIRRO DO BENFICA, COMPLETA 10 ANOS EM SUA TERCEIRA EDIÇÃO. VIVA OS IMPRESSOS QUE DESORDENAM OUTRAS FORMAS DE SER E VIVER ARTE. VIDA LONGA À PINDAÍBA E AOS PINDAIBEIR@S!

quinta-feira, 14 de março de 2013

Oh admirável mundo novo!


Eu dedico esse texto a todos aqueles que recusaram a pílula vermelha.
Qual  não foi a minha surpresa ao ler nas redes sociais comentários indignados de católicos com a falta de respeito com o processo de escolha do papa. Fiquei pensando, “eles teriam razão?” e, depois de uma noite mal-dormida, constatei de que porque você dá sua opinião  acalorada não faz de você com mais razão do aquele que usa o riso para expressar sua opinião ou até a descrença.   Primeiro haverá sempre uma forma de ri de si ou dos outros, é fato. Segundo, também está inserido o respeito à opinião do incrédulo,e terceiro muitos que comentaram sobre o processo de escolha do papa não se colocaram como evangélicos, espíritas ou ateus, mas se posicionaram como historiadores, filósofos, educadores, pessoas críticas e atentas a esse processo.   É claro que preocupa a todos nós, cristãos ou não, a escolha do líder religioso de uma das três maiores religiões do mundo. Ironias à parte, tipo assim “também tem uma fumacinha aqui”, as críticas surgiram por uma necessidade histórica de se pronunciar, por uma curiosidade que acompanha o homem desde que teve um tempinho para pensar.
Portanto, é natural  que venham críticas sim e de que se procure saber quem é o homem por trás da tradição, não é certo que devemos vigiar e orar? Para muitos, parece, só coube orar. Esqueceram de vigiar, de duvidar. Não é certo também que a bíblia fala em falsos profetas? Quem pode afirmar que um desses falsos profetas não estejam no seio da Igreja? E quando falo em Igreja me refiro de forma geral: cristã, islâmica,etc e tal. O certo é que, historicamente, a cúpula das igrejas sempre tiveram do lado dos mais fortes, não por coincidência de que o Vaticano se tornou um Estado independente por um obra de um tratado de Mussolini e quem foi Mussolini na história? Um fascista.
Eu não me preocuparia tanto com as brincadeiras, e sim, como bom cristão, que devo vigiar e orar, saber quem é esse que irá liderar o rebanho.
Vocês falam de respeito, sim respeito àquele que vigia, respeito àquele que discorda, respeito àquele que teme pelo rumo dessa charrete desgovernada que é a humanidade. Ah, mais a fumacinha saiu guiada pelo Espírito Santo, é essa tradição,destituída de significados diante dos erros e atrocidades cometidos por grandes líderes que originam o riso, porque “o riso também conta a história”, é a voz do bufão que se contrapõe, à ordem, é sábio também escutar o bufão, o avesso, o nonsense. Pois sendo ele a voz que eu não quero escutar, pode ser traga alguns questionamentos que eu não me permiti fazer. Portanto, vamos sim respeitar às diferenças e os diferentes, inclusive o que duvida.

terça-feira, 12 de março de 2013

desabafos ou crônicas

Eu sempre pensei que meu aniversário de 40 anos seria memorável, mas aí vieram as decepções de si pra si e de si pros outros. Então decidi não levar adiante essa ideia, quem sabe próximo ano? A verdade é que nossos sonhos aos 20 nunca são a mesma coisa aos 40. Ando me perguntando se toda aquela emoção seriam só hormônios, a realidade é que a realidade é mais real(redundância?). Pensamos melhor aos 40 e isso significa lidar melhor com coisas que não suportaríamos ao 20. Não pensava ser chamada de mentirosa de forma tão mentirosa ou perceber tanta fragilidade nas relações, no final não pensei que seria uma grande festa, não como estou agora. Mas estou tranquila, sabe? Incrível pensar que ainda sou feliz, deveria ter desistido, mas me sinto tão completa aos 40, forte e frágil, louco e lúcida e lúdica, e apesar dos dissabores ainda terei muitos anos de vida para comemorar. Sou não sou capaz de compactuar com essa mania da galera de magoar e de si magoar e fingir que tá tudo bem, oh geração paranóica, isso não!!!

Voltando à ativa

De uns tempos pra cá fico acordada por horas, rolando na cama que nem o Roberto Carlos imaginando textos e textos, mas não quero me expor no...